sí, hay

imigração multidimensional

danza costura onírica rítmica

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parto da viola

descoberta

no começo de setembro de 2014 senti uma enxaqueca forte ao acordar.

estranho, nunca tive isso antes.

eu sabia que estava grávida, mas faltou a ousadia de dizer.

à tarde eu e joão arrumamos um teste de farmácia.

o charles (nosso gato) subiu no meu colo e lambeu minha barriga por cima da blusa, atestando o positivo que viria.

trancamo-nos no banheiro. o palitinho mal encostou no xixi e já começou a manchar inteirinho num positivo já manjado e, agora sim, confessamente esperado.

haja gonadotrofina coriônica!

joão é um ser lindo e diante da felicidade extrema sabe rir, chorar e abraçar ao mesmo tempo. minha paixão por ele foi sempre óbvia. ele chorou, riu e brilhou muito os olhos comigo.

 

gravidez

o absurdo possível

o sexo crescendo no útero

à mostra.

quem vir

já vê na cama, gemendo.

livração de qualquer vergonha

e da dor de quaisquer infernos.

 

um sonho que tive durante a gravidez:

estou num encontro com muitas pessoas amigas.

participo da cena e ao mesmo tempo a assisto.

nesta visão percebo que o sonho sobrepõe à minha barriga de grávida uma imagem da carta O Mundo.

a imagem composta é muito bonita.

percebo que minha imagem se replica pela cena. sou muitas e ocupo vários pontos no ambiente. toda vez em que apareço o sonho sobrepõe à minha barriga de grávida a carta O Mundo.

sinto plenitude.

 

com 11 semanas de gravidez, uma nota para a filha:

pela primeira vez senti sua mônada por perto

se existisse dentro e fora

diria dentro, e fora de mim

soube que você já existe

singular.

minha lua em peixes me dá algumas singelas dádivas

e sentir você assim é uma delas.

quanta graça!

você me deu esse primeiro êxtase

e a chance de saber o que é

um dragão vermelho rítmico.

muito agradecida.

 

delícia:

tive uma  gravidez muito tranquila. sem enjôos ou desconfortos, senti apenas muito sono.

o corpo foi ajustando o ritmo da vida, e semana a semana peguei o espírito da coisa!

deu tempo de experimentar muita coisa.

trabalhei muito (mesmo) e foi salutar. li hilda hilst, fiz rituais, descansei, me diverti e não tive nenhum desejo maluco (excetuando uma inesperada pizza de chocolate).

descobri que pouca gente encara a gravidez como um estado de extrema saúde e bem estar.

com 23 semanas fui à vila paraíso, no yamaguishi.

estar lá é sempre delicioso. estar lá grávida é ver muita vida de uma vez só.

 

desafio:

é interessante ver a dedicação das pessoas com você quando se está grávida.

cada gentileza dada. as úteis e as que eu não soube onde botar.

cada um tem uma opinião, uma intuição e uma ideia sobre a sua gravidez.

e aquilo de mais íntimo que já te aconteceu vira algo da conta de todo mundo.

ter um filho é dar um neto, sobrinho, afilhado, um amigo pra alguém.

mexe mesmo com a vida de todo mundo, entendi assim.

e este foi um dos grandes desafios pra mim.

 

pré natal:

comecei o pré natal com uma médica do convênio já sabendo que a deixaria quando encontrasse uma equipe de parto humanizado.

não consegui voltar mais que duas vezes ao consultório cor de rosa dela para ser chamada de minha florzinha e ficar hipnotizada com os pingentes que ela tinha nas unhas superfeitas.

ganhamos dela uma carteirinha de pré natal com uma cegonha em cores fofas na capa (cegonha? uau!). isso de infantilizar a gravidez me deixou impaciente em muitos momentos.

em todas as consultas, passiva/agressiva, ela fez essa pergunta para nós:

vocês estão com medo, né?

não. não estávamos.

 queríamos um parto domiciliar.

ana pands e o davi nos indicaram a doula lígia, e a obstetriz cris balzano, que acompanharam a gravidez e o parto domiciliar da nara, filha deles.

dizem que escolher equipe de parto é uma questão de santo, e bateu.

a obstetra juliana sandler também acompanhou o pré natal e acompanharia o parto num hospital caso precisássemos de uma transferência.

recebi muita atenção e cuidado de todas elas.

 aqui o registro do ultrassom natural feito pela doula lígia:

eu sempre gostei muito de partos e nunca soube o que esperar quando chegasse minha vez.

optei pelo parto domiciliar. não sinto paz, tampouco conforto em hospitais.

tive muito apoio e encontrei muita informação sobre o parto humanizado, o mito da dor, o assustador número de cesáreas desnecessárias, etc.

teve quem se chocasse com a escolha, mas ninguém armou fogueiras na minha porta.

depois de ler muitos relatos de parto, ver muitos vídeos e conversar com a equipe e com amigas que pariram em casa, constatei o óbvio: cada parto é único.

 

fiz um plano a: parir em casa.

fiz um plano b: em caso de necessidade, parir num hospital que respeite nascimentos humanizados.

fiz um pano z: em caso de emergência, correr pro hospital mais próximo.

 uau, você não tem medo? mas será que o bebê passa na sua bacia? a dor é insuportável, você sabe né? nossa, que corajosa!

a lista de reações é bem grande, e é chocante como algo tão natural quanto nascer viva numa zona de medo, tabu e desinformação.

 

soube desde sempre que a condição para o parir em casa era ter uma gravidez de baixo risco.

até a trigésima sexta semana estava tudo caminhando na direção do parto domiciliar, porém com 36 semanas um ultrassom indicou que a viola estava pequena para a idade gestacional. um segundo ultrassom, com 38 semanas, mostrou que apesar de miúda, estava cheia de saúde!

mesmo assim a equipe optou por um parto hospitalar para que ela fosse monitorada durante o trabalho de parto, que poderia ser longo e acarretar sofrimento a ela.

concordei sem fazer muito auê porque alarde não é muito da minha personalidade, mas vivi uma noite escura nas semanas que seguiram.

já tínhamos arrumado boa parte da lista de coisas para o parto em casa, e estávamos muitíssimo à vontade com esta ideia, mas… comecei a migrar para o plano b.

escolhemos, por sugestão da obstetra, o hospital samaritano. eu nunca pesquisei nada sobre o hospital porque tinha muita certeza de que não precisaria do plano b.

lá estava a gravidez me colocando contra a parede.

 

parto

jogo de tarot para o parto, por doula lígia:

a primeira carta foi para o corpo e saiu o ESPÍRITO BRINCALHÃO (pajem de paus).

me lembrou que sou filha dos ibejis na direita, e que corpo e carne é espaço de ter graça e muita vida.

a segunda carta foi  para a mente e saiu o REBELDE (imperador).

considerando o imponderável, o parto é meu e valia arriscar tudo pra ser do jeito que eu queria parir.

a terceira carta foi tirada para o coração e saiu a CRIATIVIDADE (imperatriz).

me lembrou que estar grávida me ultrapassa, e que nascer é inevitável.

a quarta carta foi o joão quem tirou, sobre ser pai da viola, e saiu o MESTRE.

 

parindo:

no dia 03 de maio (38 semanas e 5 dias de gravidez) eu e joão saímos logo cedo para um passeio de domingo.

tomei um suco de tomate temperado no café da manhã e caminhamos muitíssimo pela avenida paulista em busca do almoço.

chegamos em casa em torno de 18h e eu estava exausta. dormi até 22h.

num momento comecei a sentir uma água quentinha. achei que estivesse sonhando e me dediquei a prestar muita atenção na sensação corporal porque sabia que quando estourasse a bolsa seria parecido com aquilo.

logo percebi que não era um sonho. estava acontecendo mesmo! a bolsa rompeu.

joão trabalhava na sala e quando ficou sabendo começou a quicar de alegria pela casa.

ligamos para a equipe toda, e como eu não estava sentindo nenhuma contração, e o líquido era bem clarinho, nos aconselharam a descansar.

resolvi arrumar a mala para o hospital e escrever meu plano de parto.

eu estava calma e simultaneamente elétrica. a casa estava uma bagunça, daquelas que só os íntimos conhecem, e por isso considerei que parir no hospital poderia não ser tão ruim quanto eu imaginava. graças à bagunça da casa entrei em paz com esta ideia pela primeira vez.

jantamos, e em torno de 1h20 fomos dormir.

João, tira a nossa senhora do bom parto do armário, põe ela aqui?

dormimos.

logo comecei a sentir cólicas como as menstruais. devem ser contrações, imaginei.

aqui gostaria de abrir um parênteses no relato e agradecer a janie hardwicke collings.

bem antes de engravidar assisti uma série de vídeos sobre parto  natural e esta mulher disse uma coisa que me preparou de uma maneira extraordinária para parir. falou sobre como a experiência da menstruação treina a mulher para o parto. teceu uma crítica, que na época me serviu bastante:

A principal coisa sobre dar à luz é sair completamente do controle, e entrar num estado alterado de consciência que dê espaço para o seu corpo parir. E a menstruação nos prepara para isso. Nossa cultura atualmente nos ensina a ignorar e esconder ao máximo esta experiência. Ao invés de as mulheres aprenderem a compreender a mensagem que seus corpos estão passando a elas durante a menstruação, ao invés de aproveitarem a oportunidade de conectar suas cabeças com seus corpos. Ao invés disso toma-se paracetamol a cada 4 horas para conseguir fingir que nada demais está acontecendo.

depois de ouvir isso nunca mais consegui tomar analgésicos durante as cólicas menstruais. A cartela de buscofem interrompida está na gaveta desde então. durante os próximos meses apreciei as cólicas que tive, já sabendo que se um dia eu parisse teria sido útil sentí-las.

quando percebi que as contrações eram como cólicas menstruais bem caprichadas me senti muito segura sobre o que estava acontecendo com meu corpo, e a dor não me tomou de susto.

baixei no celular um aplicativo para contar as contrações, e vi que estavam regulares, vinham a cada 5 minutos e duravam uns 30 segundos. como a intensidade das contrações ainda era fraca optei por não alarmar o joão, nem ligar para a equipe. fiquei na cama tentando dormir nos intervalos, pois sabia que o trabalho de parto poderia varar a madrugada e se estender, e eu precisaria ter energia pra ir até o fim.

em torno de 2h senti náusea e já não estava confortável ficar na cama tentando dormir. deixei o joão roncando, peguei o aquecedor, umas almofadas, um roupão, um agasalho e me enfiei no banheiro. entendi aqui os bichos que se aninham para parir.

criei um apoio com as almofadas e fiquei ajoelhada. quando as contrações vinham eu aumentava o aquecedor e respirava, respirava. quando passavam eu desligava o ar quente e relaxava. fiquei neste ritual cerca de uma hora e meia.

aqui a experiência já não era linear.

num momento senti medo da dor. mas a próxima contração chegou, e acabou com o espaço do medo, me jogou de volta na experiência. compreendi rápido, e de novo, que qualquer tentativa de sair dali seria fortemente combatida pela intensidade. que bom! não valia mesmo sair dali.

noutro momento fui acometida por uma visão muito bonita: as cartas do tarô do osho que a doula lígia tirou para mim sobre o parto estavam dispostas num fundo sideral. as imagens das cartas estavam vivas e tinham muito brilho. algo em mim compreendeu profundamente a regência daquele momento por aquelas imagens. me senti muito bem acompanhada dentro do banheiro.

aqui as contrações já estavam durando cerca de 50 segundos e o intervalo entre elas era de 3 minutos.

de repente ouço pessoas gritando na rua. aqui em casa as madrugadas de quinta a domingo sempre têm a participação dos que vararam a noite nas festas. eles fizeram a gentileza de acordar o joão pra mim.

quando joão chegou no banheiro conferiu o intervalos das contrações e sugeriu ligar para a doula. achei que eram pródromos ainda porque apesar de ritmadas não estavam de morrer. ele insistiu, e nessa hora percebi que eu não estava em condições de decidir este tipo de coisa, nem de manter uma argumentação qualquer que fosse.

pode ligar, mas avisa que a dor não irradiou para as costas ainda. e eu não quero falar com ninguém ao telefone.

ele ligou pra doula, que sugeriu que eu entrasse num banho morno pra ver se as contrações espaçavam ou paravam. entrei, e nessa hora desejei com muita força que as contrações não parassem e que nada daquilo cedesse, ou diminuísse de intensidade. cheguei até aqui, quero ir pra frente, pensei.

o corpo concordou comigo, e debaixo do chuveiro estava mais difícil de achar uma posição confortável. joão estava marcando o intervalo das contrações, que agora estavam mais intensas e vinham a cada um minuto e meio.

quis sair dali porque o vapor estava me perturbando.

ao sair senti uma pressão bem forte na bacia, e começou a escorrer sangue pela minha perna. era lindo o sangue vivo.

senti os ossos da bacia abrindo! e dá vontade de escrever mil palavras sobre esta sensação.

joão, pode ligar pra todo mundo que vai nascer mesmo!

ele já tinha avisado a doula e a equipe estava a caminho de casa.

sentei no vaso sanitário, e enquanto joão ligava para  a cris balzano, senti uma necessidade imperiosa de fazer força, e fiz. uma força precisa e suave. coloquei a mão e senti a cabeça saindo.

joão, está nascendo!

ufa, vai nascer em casa mesmo, pensei. aumentou muito a paz em mim quando constatei que não tinha volta.

a obstetriz estava na linha com joão, pediu que ele não desligasse e orientou a segurar o neném quando nascesse, colocá-lo diretamente no meu colo, e mantê-lo aquecido.

joão colocou a ligação no viva voz, e nesta altura eu já tinha me levantado do vaso pra facilitar as coisas.

a cabeça já tinha saído toda. uns segundos a mais e ela já estava todinha do lado de fora.

dei uns gemidos muito bonitos quando isso aconteceu, e ainda agora consigo ouví-los soando no banheiro.

ela chorou um bocadinho, veio direto para o meu colo com os olhos bem abertos, deu um bocejo e ficou olhando tudo.

a eternidade entrou no banheiro com a gente.

até agora estamos ali, respirando aquele momento.

joão quis avisar a doula que a viola já tinha chegado.

manda uma foto, sugeri.

a primeira foto <3

a primeira foto ❤

joão aqueceu nosso quarto e fomos para lá.

uns quinze minutos depois a equipe chegou. foi gostoso ver as meninas entrando pela porta. éramos todos muito alegres ali.

joão e viola

joão e viola

a placenta ainda não tinha nascido, e com massagem da ju sandler ela nasceu. saiu inteirinha. perdi bem pouco sangue, e não tive nenhuma laceração no períneo. me senti muito bem durante e depois do parto.

pesaram a viola (2.5kg) e ficamos conversando sobre como tudo aconteceu.

joão começou a arrumar a casa toda, num pico de energia. a doula lígia o acompanhou e lavou a louça toda 🙂

a viola nasceu 4h11 da manhã, a placenta nasceu depois de uma hora mais ou menos. em torno de 6h a equipe foi embora, e quando amanheceu o dia os gatos se organizaram e vieram um por vez visitar pela janela.

visita do charles

agradeço bem fundo ao joão, essa criatura absurda que gestou e pariu ao meu lado;  à equipe que nos assistiu, e a todos aqueles que, de alguma forma, dedicam sua força à humanização dos nascimentos.

parir é maravilhoso.

foi absolutamente gostoso te colocar no mundo, viola.

 

 

purpurinho

madeira desta e daquela árvore
considerar os arcos de pessegueiro
dobrar trabalho, polir
tombamento das coisas.

garantir a enormidade entre aspas abissais
com esses cílios, pele, muito peito,
agora tetas e alguém dentro.

epifania.

morgue

hay mucho a matar-se
dentro da casca
até que rompem
exigindo calma,
que se acudam
e cuidem uns dos outros
afastando o morgue da sala
enquanto o defunto é velado
sem ninguém saber por qual angústia foi
e nem quem era

cerração

imaginou sua lembrança quando
à primeira vez tocaram no assunto
pia batismal, e
sentiu saturada, mas úmida
a obviedade de levar
água num arredondado e santidade.

depois soube da taça

e das vezes que viu o apocalipse revelar medidas

mais duras.

tornava a ter olhos para os ossos das coisas,

convergindo para aquela conferência

que duma vez estava mesmo morto

e pode apenas furar-lhe o flanco,

e noutra vez viu o senhorio fêmea das coisas

guardar num astro o astral inteiro

e migrar.

 

 

 

 

rememorigilo

esticar os cotovelos para dar as mão e cortar as unhas

torcer, contar que não cortassem tão curtas mes ongles

quase sangue

dez pontas muito vivas

já choque:

chegariam no mindinho dos pés.

composto líquido

saiu coberto de plástico, capa de chuva

pouco lápis, caderno,

a ponta da caneta esgarçando.

muitos dias depois de todo espaço para enterrar

insistia em luto,

pois crente que ainda vivo devesse desenhar, beber vinho, estar nu na frente dos outros

mexer a cintura devagar, querer ouvir, sangrar.

outrossim engasgou cheio d’água, deserto.

tanto mais vivesse e despisse

mar de longe

sal suando

mais calor.

abissal transparência querendo ser vista

translúcida

– deixa eu ver,

parou de chover um pouco.